Jornalista Meireles

Friday, October 21, 2005

Em busca de um príncipe (des)encantado

Um dia pensamos que iremos encontrar o príncipe encantado, aquele que vem em um cavalo branco trazendo uma rosa na mão, com um sorriso maroto, falando da vida... Enchemos os nossos pensamentos com simbologias para adentrar no nosso imaginário de um mundo perfeito. Como se o amor estivesse atrelado a um conto de fadas.

Às vezes me pego a chorar assistindo a um filme com uma história a qual queria para mim... Às vezes não fazemos das nossas vidas um romance perfeito e nos espelhamos naquelas imagens cinematográficas, como se o mundo se resumisse a isso: uma tela em movimento.

Mas nos esquecemos que, horas depois, enxugamos as lágrimas e vemos que o sol nasce quadrado em muitos quintais, e sentimos o passar dos anos sem nenhum sinal daquele cavalheiro ao qual nos tirará e nos levara para vivemos uma linda história de amor... Tudo não passou de uma invenção para uma felicidade ilusória.

Os tempos mudaram, as carruagens se desenvolveram, motorizaram o cavalo e o pintaram de negro, artificializaram as rosas. E o príncipe? Talvez tenha deixado ele partir-se sem perceber que as histórias são outras, contadas por homens e não só para adormecer as crianças. No fundo nós mulheres, nunca estamos preparadas para a chegada de alguém quel mudará o rumo de nossas vidas, porque imaginamos que essas coisas aconteçam da forma como roteirizamos, com um fundo musical perfeito para um encontro almejado.

A verdade é que amamos platonicamente um personagem que inventamos para criar uma historinha a ser contada para nós mesmos. E nos esquecemos de que podemos amar demasiadamente o pipoqueiro, o ambulante, o jardineiro, o andarilho, seja ele quem for, porque para se viver uma linda história de amor não precisa-se de simbologias, mas consiste em olharmos até mesmo as imperfeições e amá-las como se isso fosse o prefacio de um longo livro.

Wednesday, July 27, 2005

O trem e seus olhares

Adentro-me no trem e, inerte, observo os olhares daqueles que me cercam. Olhares prateados, luminosos, tímidos, cansados, transparentes, todas em suas singularidades.Cada um com uma tonalidade diferente, que olha o mundo de uma forma talvez incerta, às vezes certa (não sei)...Uns observam o nada, outros um livro... Alguns olhares procuram mulheres sinuosas, outros, as crianças. Eu procuro os olhares...Para tentar, quem sabe entendê-los, admirá-los, traduzi-los.Uns carregam dores, outros suas lembranças, seus problemas e até os sonhos, e o que lhes difere é que cada um se volta para uma certa direção...Olhos deficientes, olhos estrelas, olhos de mães...Olhos que aquele vagão carregava nos ombros, no mesmo compasso que passava nos seus trilhos...Tentei por muito tempo não fitar o meu próprio olhar... Atenta a tantas outras retinas que ali estavam, mas de repente deparei-me com o vidro do trem, olhei-me, olhei no fundo daqueles meus olhos negros, que como muitos, carregava tantas outras dores, tantos outros sonhos...Avisto a próxima estação, em poucos minutos irei perder alguns olhares, e minhas reflexões de uma viagem passageira, na certeza de que outros olhos virão a passar pelos meus.


Emiriene Costa

Tuesday, March 22, 2005

As meninas do assento etéreo

As meninas do assento etéreo


à Vivian Zabotto e Thais Barros


Ali, estavam elas, com as suas ancas sobrepostas ao chão... Cujas mãos declinavam para traz, firmando-se em seus assentos, alicerçando aquele espaço, de sonhos e palavras.
Dias e anos se passaram, e ali, todas as noites elas estavam, enraizadas pela beleza e pelas suas grandes leniências, conduzidas a um só instante etéreo de pousar suas assas sobre o córrego dessas escadas.
Em meio a cada degrau as tuas vozes e teus sorrisos que inebriavam aquele ambiente, sempre possuidoras de ramos e flores.
Desconhecia os teus preceitos e os teus sonhos, desconhecia as tuas condutas e as vossas idades... Mas adimirava-as pelos caules amarronzados. E, podia todas as noites, tuas faces vislumbrar, quando o vento cálido aos teus galhos tocavam, sobre a magnitude, a conduta e os amores. Doces pétalas, doces criaturas, em sábia primavera.
Eram apenas duas que ali estava, uma de olhar prateado, outra de face serena, uma esboçava um canto, outra tão meia e pequena, uma era rosa singela, outra lembrava jasmim, conhecedoras das mais diversas estações. E eu, sempre as encontrava sentadas a contar os contos, a ouvir os pássaros, a germinarem os frutos. Sem malícia, sem descrença, sem governo.
Outrora oscilavam sobre a construção ainda inexistente, e os tijolos, ainda não postos, mas preparados estavam, para esse jardim... A idéia condescendente do assento das flores.


Por Emiriene Costa

Aí que fome de cabelo

Aí que fome de cabelo


Por Emiriene Costa


Essa vida é mesmo muito engraçada. É sabido que falta comida no mundo, que a fome se alastra gradativamente, mas comer cabelo é o cúmulo do absurdo.
Comer, degustar, apreciar, engolir, digerir, mastigar, sugar as substâncias capilares... Definições variadas para entender o ato.
Na certa os comedores de cabelo, os denominados: tricofágos, acreditem que possam adquirir pela boca o que no cérebro não encontram. E vai ao ventre, e segue pelas entranhas estomacais, desce, sobe e faz digestão, até que outros bolos de pêlos se formem em suas vísceras. Vai nascer cabelo até na alma, quanta criatividade para combater a fome.
Existem hoje em dia muitas pessoas que apreciam a boa comida, mas o que é a boa comida para os degustadores de cabelos? Cabelos loiros devem ter um gosto diferenciado dos ruivos e pretos. Mas e os pintados? E os tingidos, que gosto deve ter? Provavelmente o gosto da modernidade, do industrial, do capitalismo, e que decerto agradam o paladar de muitos.
Que Fome Zero que nada, a onda agora é criar cabelos e comê-los, com tinturas ao molho. Então, cuidado cabecinhas de plantão, se seus fios capilares forem inadivertivelmente arrancados é hora de saber que os tarados ou esfomeados estão a solta.
Precisamos protestar contra a fome no mundo, mas precisamos também conhecer a face dos trilomaníacos (arrancadores de cabelo), não queremos conviver com a nossa calvície, não queremos ver nossos preciosos fios nos pratos servidos como sobremesa na mesa de granfínos.

Thursday, March 17, 2005

Um vão desejo

Um vão desejo

O meu intuito era de ser poeta,
Mas nem sempre conseguia ter em mim as palavras,
O meu intuito era de ser sempre jovem, ser bem visto e sempre amado,
Mas um horizonte atropelou meus passos.

Os meus narizes, as minha dores, e até o meu soluço me serviram de abrigo
Mas eu nunca conseguir ser palavra.
Dormia com ela em sonhos,
Brincava com todas sem ao menos saber...

Despertava como se fosse criança
E todas as paisagens eram por mim contempladas,
Mas eu nunca conseguir ser poeta,
Era apenas eu e mais nada.

Cavei meu próprios buracos
Deitei na chuva, curvei minha fronte...
Beijei a mãos dos homens e dos ogros e dos que não são homens,
Compus minha primeira palavra: a poesia.

Mas apenas o meu desejo permanecia com o tempo
E nada mais conseguir além disso...
Hoje, apenas contemplo os outros
E os meus, permanecem calados e em silêncio.

O desejo de ser Poeta.

Emiriene Costa 17/03/2005

Sunday, March 06, 2005

A Roda-Gigante

A Roda-Gigante

O mundo é grande
E minhas sensações incertas,
As vezes parece que meus pés estão tão soltos
Em outra parece que nem os sinto.

A vida parece uma escada de tempos,
As vezes me vejo disperso,
Em outra não vejo...
E tudo se parece com um escárnio doce e seco.

O mundo é muito pequeno,
As vezes te vejo calado,
Em outras sorri de mentira
As vezes me encontro acordado.

A vida é um aeroporto quadrado
Que me deito quando estou dormindo,
E desperto quando extasiado
Subindo tranqüilamente, subindo.

O mundo é muito volúvel
Parece crescer sem parar,
Parece pequeno e subo
A rir, a sorrir, a cantar.

Emiriene Costa

Tuesday, October 19, 2004

Onde habitam os amigos?

Onde habitam os amigos?


Damos o mérito da amizade para aquelas pessoas que se mostram presentes, companheiras, cúmplices, prestativas. Mas existem aquelas que nem sempre estão presentes, nem sempre mandam notícias, nem sempre...Mas emprestam-nos os ombros mesmo à distância. Muitas vezes até em pensamento e que no fundo sabemos que ele existe e que tem um lugar especial reservado no coração.

Às vezes me pego a pensar naqueles amigos que algum dia disse-me ou fez algo que mudasse o rumo da minha vida. Penso em como eles estão agora separados por quilômetros de terra, asfalto ou uma infinidade de pegadas. Muitos estão registrados em fotos, outros em cartas antigas, alguns me vêm em sonho, outros em pensamento e suas imagens passam em minha mente como orações para que estejam bem. A minha gratidão e, sobretudo o meu desejo de falar-lhes o quão importantes são.

Mas onde realmente habitam os amigos?Onde são suas moradas?Qual o endereço certo daqueles que já se foram, dos andarilhos ou até dos que cruzam o nosso caminho apenas uma vez na vida e que jamais os esquecemos.

Falaram-me de uma nova maneira de encontrá-los, os novos, os velhos, os perdidos, os sem endereço, os fieis amigos. Uma casa da nova era, que a tecnologia inventou para suprir os nossos desejos modernos. O chamado Orkut.

Bati na porta e de fato encontrei, depois do estrangeirismo, algumas figuras do coração. “Fico feliz em te encontrar aqui, bem vinda, agora podemos nos ver sempre”, alguém me disse e eu respondi com o mesmo fervor e alegria.

Dúvidas então surgiram se esse era realmente o lar, na ânsia de saber a resposta, fui pesquisar seus paradeiros, mas não encontrei seus rostos, nem suas identidades. Se o Orkut é realmente o habitat deles, onde estão aqueles que encontro apenas no lado esquerdo do peito?



Emiriene Costa

Tuesday, August 24, 2004

Aquela criança em mim, quase esquecida

Aquela criança em mim, quase esquecida



"Ai que saudade eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais..."
Casemiro de Abreu

Quem nunca desejou crescer quando era criança? Aquela vontade louca de ser adulto, de alcançar a maior idade e viver a vida com liberdade. Para não escutar mais nossa mãe murmurando "isso não é conversa para criança", "é hora de criança dormir", "só quando você crescer, filhinho". E eu pensava nesse crescer que não chegava logo, para poder entrar nas conversas sem ser chamado, dirigir o carro conversível, sair sozinho, não ter hora pra voltar, ser in-de-pen-dente.

Enquanto isso eu olhava atentamente meu pai se barbear e meu irmão que não largava o telefone, e eu não via a hora de ser grande e ser respeitado.

Bem, é verdade que eu sonhava em ser médico, mas nada foi como eu esperava quando eu finalmente cresci. Um dia, para a minha surpresa, num piscar de olhos, cansado de tanto esperar, estava eu, finalmente com meus 18 anos, e 23, e... Meu corpo foi se transformando, já podia votar em alguém que governasse meu país, me alistar no exército, ser o maioral...Foi assim que tudo aconteceu, fui atender a uma ligação e, com ela, vieram a responsabilidade, o trabalho, as contas a pagar...

Hoje eu sei que passei tanto tempo querendo ser grande que acabei esquecendo de ser criança. E, se eu não tivesse esse orgulho bobo, ou esse respeito, que tanto anos me custaram, eu certamente sairia pulando nas ruas, saltitando com as borboletas, subindo em árvores, brincaria de esconde-esconde...

Eu pensei que ser adulto seria emocionante, mas não é. Sinto que algo inocente e sapeca ainda pulsa dentro de mim, mas tenho receio de parecer ridículo, ou que me chamem de louco, ou que falem "como você é criança...".

Acho que todos nós temos essa sensação de euforia, mas preferimos ser sempre tão somente sérios. E é por isso que os adultos olham para as crianças quase babando, desejando no fundo ser como elas. E, se me permitirem, ainda acho que a função dos adultos não é ensinar as crianças a serem adultas, mas deixar que elas sejam simplesmente crianças.


Emiriene Costa