Jornalista Meireles

Saturday, March 27, 2004

Presságio

O trem atravessou esse espaço entre o pensamento e os sonhos
E ao trabalho diário me conduzi, almejando entardecer.
Porém, meus olhos se voltaram para toda condição humana.
Roupa suja, mãos lavadas, braços nus...

De repente, descobri que a chegada do sol era o presságio para a vida.
Um novo dia sobre outro dia que eu carregava nos ombros.
E a única palavra ao acordar era tecida pelo galo no quintal
A fim de que fosse o canto simbólico enviado por Deus.

Agora o apito do trem fazia-se sonata que meus ouvidos havia se acostumado
Porque meus filhos cresciam no riacho que outrora me banhava
Descalços sobre o chão que eu pisara
Famintos...Sobre a condição que me encontrava.

Anoitece!
E tudo então é o que se passa nesse vagão.
Que meus sonhos nunca esquecem...
Esse vagão que todas as manhas é a porta para um novo dia de trabalho ou um novo recomeço.


Emiriene Costa

Monday, March 22, 2004

A CRIAÇÃO

Certos gestos, certos tempos
em que a mão cálida apalpou o ventre.
Conota o tempo e denota os gestos
Sobrepõe vertentes e te conduz ao céu.

Certas palavras, que brincam de roda
que andam descalças, que amam e sorri.
Conduzindo lentamente os anos a Deus
enraizando com precisão os gestos.

E esses certos dedos, certas terras
Arrida, alada, arada...
Sobre o som daqueles que vivem sob ela
nesse compasso interminável de estradas.

Um dia levitas, no outro se assendeia
se tua mão eleva-se, a outra em vão,
Escreves minuciosamente e inconsciente
persistes na obra: a criação.

Alguns meditam, outros falam ou rezam
A extensão não limita nenhum recalque.
Mas na forma horizontal está o poente
Certo de olhos na terra vertentes.

Não me pinto com as cores
neutro gestos, gestos impávidos,
que o tempo, da terra arranca
E ninguém jamais desperta:

A CRIAÇÃO.


Emiriene Costa

Saturday, March 13, 2004

Eu e o Caipira

Eu e o Caipira

Estava eu, a observar a pintura de Almeida Júnior, na sala de aula da Biblioteca Municipal no curso de produção de texto. A professora propôs que fizéssemos uma produção textual diante daquela arte. Eu que atentamente observava tudo, vi meus colegas, jovens e adolescentes, em diversas analogias...Enquanto alguns conversavam, riam, outros estavam inclusos em seus pensamentos. E eu taciturno e calado fazia similar expressão do "O Caipira Picando Fumo". Porém em minhas mãos, diferentes do Caipira, sustentavam papel e lápis.

E como é bom saber que a arte nos proporciona viagens, ela nos leva para lugares passados e até um futuro as vezes inexistente, a estações diversas e algumas vezes é necessário o distanciamento para poder apreciar e entender a arte como acontece com as pinturas impressionistas.


Dei alguns passos dentro de minha infância, fui no interior da Bahia e pisei aquele mesmo chão de barro. Lá vi crianças que brincavam inocentemente, sobre aquela areia que moudurava suas roupas, e que diante ao sol pareciam purpurinas. Vi as casas de taipas e as galinhas no terreiro que procuravam por réstias de vidas, nesse sertão que minguava a esfera da fome. Também vi pés descalços e o olhar distantes daqueles que jaziam conquistas e vi por muitas vezes a mão sobre o ventre carregado.

Almeida Jr, sabia o que estava fazendo com a composição daquela pintura, que estava diante dos meus olhos, e que por ela refletia um Brasil sem guerras, sem poluição e sem luxurias. N'alqum lugar o mesmo ar fresco que o entardecer e a natureza límpida jamais se esvaia nessa atmosfera nordestina.

Nenhum conflito, nenhum parente, nenhuma bomba... apenas eu, o Caipira e nossos sonhos. Sonhos que perpassavam as sombras cuja tarde mansamente conduzia-o a noite para contar estrelas, a fim que elas tornassem por um instante, cadentes.

Pelos meus ouvidos, agora, aquela ópera e a ele a sonata dos pássaros e dos grilos. Nenhum sinal de fumaça, nem o fogo do café, nem o fumo acesso. Apenas a plantação e o homem... Diante do poeta a pintura e do pintor a criatura...

Abro os olhos e percebo, que não há mais ninguém, todos já havia se despedido mas eu taciturno e calado não vejo armas, nem sangue, nem a dor. E se assim for, em nome da arte, convido-te a outras viagens.


Emiriene Costa