Jornalista Meireles

Monday, July 12, 2004

Onde fica o afetódromo?

Onde fica o afetódromo?

Outro dia, na sala de aula, a professora de Legislação e Ética nos perguntou como anda o afeto nos dias de hoje. A resposta é simples: não anda. É claro que eu não falei para ela, mas, talvez, se tivesse esboçado tal pensamento, ela entendesse minha descrença.

Ando pelas ruas e vejo passos apressados, atropelamentos simultâneos e corporais que acontecem a todo instante, sem ao menos um pedido de desculpas. Olho pelas janelas das casas (e sei que é feio olhar), e o que encontro é uma televisão ligada que substitui a conversa casual com seus ensinamentos apáticos de consumismo.

Não há mais o vizinho, que vai à sua casa aos domingos à tarde, para lhe oferecer um pirex de doce ou saber se você está bem. Pois, os muros e os arranha-céus se encarregaram de pô-los a certa distancia e, de preferência, bem longe.

Vejo a fila dos desempregados, mas não vejo a fila dos desafetos, acho que é porque o emprego ainda é uma utopia realizável. Leio currículos com qualidades mecânicas e vagas com pretensões de máquina. E sei que essa reflexão patética não me permite enxergar os corpos estirados nas camas de hospitais, nas quais seres humanos que mendigam, com os olhos, não entorpecentes, mais um remédio para a alma, um carinho, um afago que se esvaiu não sei em que ares.

Talvez as guerras sejam conseqüência da escassez desse antídoto afetuoso, do cumprimento, do abraço, dos sorrisos, do beijo sem malícia, dos elogios e do bem querer. Sei também que as armas químicas servem para neutralizar os corações humanos e que as religiões fazem dos templos um mercado.

E acho que, diante a essa crise, haverá muitos canais televisivos anunciando produtos que curam esses males, (que muitos dizem ser o estresse, a "doença da nova era") com uma tarja amarela indicando: EXPERIMENTA.

Ouvi nessas minhas caminhadas alguém que falava de globalização, industria cultural e monopólio. Confesso que não sei o que tudo isso significa, mas acho que neles também deve haver alguma tarja amarela.

E nessas minhas andanças ouvi e vi crianças mencionarem em alto e bom som, nomes que não tenho coragem de dizer-lhes, só sei que não eram elogios ou coisa parecida. Não sei com quem elas aprenderam, mas deve ter sido com os adultos.

Então ligue para o 0800 e certamente encontrará pessoas afetuosas. Elas farão massagens no seu ego e lhe tomarão seu dinheiro. Talvez até levem com elas a sua dignidade, o seu amor próprio e as suas crenças.

Mas, se você não acredita no afeto, lamento informar: você se estagnou, enquanto eu continuo andando.


Autor : Emiriene Costa