Tuesday, August 24, 2004

Aquela criança em mim, quase esquecida

Aquela criança em mim, quase esquecida



"Ai que saudade eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais..."
Casemiro de Abreu

Quem nunca desejou crescer quando era criança? Aquela vontade louca de ser adulto, de alcançar a maior idade e viver a vida com liberdade. Para não escutar mais nossa mãe murmurando "isso não é conversa para criança", "é hora de criança dormir", "só quando você crescer, filhinho". E eu pensava nesse crescer que não chegava logo, para poder entrar nas conversas sem ser chamado, dirigir o carro conversível, sair sozinho, não ter hora pra voltar, ser in-de-pen-dente.

Enquanto isso eu olhava atentamente meu pai se barbear e meu irmão que não largava o telefone, e eu não via a hora de ser grande e ser respeitado.

Bem, é verdade que eu sonhava em ser médico, mas nada foi como eu esperava quando eu finalmente cresci. Um dia, para a minha surpresa, num piscar de olhos, cansado de tanto esperar, estava eu, finalmente com meus 18 anos, e 23, e... Meu corpo foi se transformando, já podia votar em alguém que governasse meu país, me alistar no exército, ser o maioral...Foi assim que tudo aconteceu, fui atender a uma ligação e, com ela, vieram a responsabilidade, o trabalho, as contas a pagar...

Hoje eu sei que passei tanto tempo querendo ser grande que acabei esquecendo de ser criança. E, se eu não tivesse esse orgulho bobo, ou esse respeito, que tanto anos me custaram, eu certamente sairia pulando nas ruas, saltitando com as borboletas, subindo em árvores, brincaria de esconde-esconde...

Eu pensei que ser adulto seria emocionante, mas não é. Sinto que algo inocente e sapeca ainda pulsa dentro de mim, mas tenho receio de parecer ridículo, ou que me chamem de louco, ou que falem "como você é criança...".

Acho que todos nós temos essa sensação de euforia, mas preferimos ser sempre tão somente sérios. E é por isso que os adultos olham para as crianças quase babando, desejando no fundo ser como elas. E, se me permitirem, ainda acho que a função dos adultos não é ensinar as crianças a serem adultas, mas deixar que elas sejam simplesmente crianças.


Emiriene Costa

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