Jornalista Meireles

Tuesday, March 22, 2005

As meninas do assento etéreo

As meninas do assento etéreo


à Vivian Zabotto e Thais Barros


Ali, estavam elas, com as suas ancas sobrepostas ao chão... Cujas mãos declinavam para traz, firmando-se em seus assentos, alicerçando aquele espaço, de sonhos e palavras.
Dias e anos se passaram, e ali, todas as noites elas estavam, enraizadas pela beleza e pelas suas grandes leniências, conduzidas a um só instante etéreo de pousar suas assas sobre o córrego dessas escadas.
Em meio a cada degrau as tuas vozes e teus sorrisos que inebriavam aquele ambiente, sempre possuidoras de ramos e flores.
Desconhecia os teus preceitos e os teus sonhos, desconhecia as tuas condutas e as vossas idades... Mas adimirava-as pelos caules amarronzados. E, podia todas as noites, tuas faces vislumbrar, quando o vento cálido aos teus galhos tocavam, sobre a magnitude, a conduta e os amores. Doces pétalas, doces criaturas, em sábia primavera.
Eram apenas duas que ali estava, uma de olhar prateado, outra de face serena, uma esboçava um canto, outra tão meia e pequena, uma era rosa singela, outra lembrava jasmim, conhecedoras das mais diversas estações. E eu, sempre as encontrava sentadas a contar os contos, a ouvir os pássaros, a germinarem os frutos. Sem malícia, sem descrença, sem governo.
Outrora oscilavam sobre a construção ainda inexistente, e os tijolos, ainda não postos, mas preparados estavam, para esse jardim... A idéia condescendente do assento das flores.


Por Emiriene Costa

Aí que fome de cabelo

Aí que fome de cabelo


Por Emiriene Costa


Essa vida é mesmo muito engraçada. É sabido que falta comida no mundo, que a fome se alastra gradativamente, mas comer cabelo é o cúmulo do absurdo.
Comer, degustar, apreciar, engolir, digerir, mastigar, sugar as substâncias capilares... Definições variadas para entender o ato.
Na certa os comedores de cabelo, os denominados: tricofágos, acreditem que possam adquirir pela boca o que no cérebro não encontram. E vai ao ventre, e segue pelas entranhas estomacais, desce, sobe e faz digestão, até que outros bolos de pêlos se formem em suas vísceras. Vai nascer cabelo até na alma, quanta criatividade para combater a fome.
Existem hoje em dia muitas pessoas que apreciam a boa comida, mas o que é a boa comida para os degustadores de cabelos? Cabelos loiros devem ter um gosto diferenciado dos ruivos e pretos. Mas e os pintados? E os tingidos, que gosto deve ter? Provavelmente o gosto da modernidade, do industrial, do capitalismo, e que decerto agradam o paladar de muitos.
Que Fome Zero que nada, a onda agora é criar cabelos e comê-los, com tinturas ao molho. Então, cuidado cabecinhas de plantão, se seus fios capilares forem inadivertivelmente arrancados é hora de saber que os tarados ou esfomeados estão a solta.
Precisamos protestar contra a fome no mundo, mas precisamos também conhecer a face dos trilomaníacos (arrancadores de cabelo), não queremos conviver com a nossa calvície, não queremos ver nossos preciosos fios nos pratos servidos como sobremesa na mesa de granfínos.

Thursday, March 17, 2005

Um vão desejo

Um vão desejo

O meu intuito era de ser poeta,
Mas nem sempre conseguia ter em mim as palavras,
O meu intuito era de ser sempre jovem, ser bem visto e sempre amado,
Mas um horizonte atropelou meus passos.

Os meus narizes, as minha dores, e até o meu soluço me serviram de abrigo
Mas eu nunca conseguir ser palavra.
Dormia com ela em sonhos,
Brincava com todas sem ao menos saber...

Despertava como se fosse criança
E todas as paisagens eram por mim contempladas,
Mas eu nunca conseguir ser poeta,
Era apenas eu e mais nada.

Cavei meu próprios buracos
Deitei na chuva, curvei minha fronte...
Beijei a mãos dos homens e dos ogros e dos que não são homens,
Compus minha primeira palavra: a poesia.

Mas apenas o meu desejo permanecia com o tempo
E nada mais conseguir além disso...
Hoje, apenas contemplo os outros
E os meus, permanecem calados e em silêncio.

O desejo de ser Poeta.

Emiriene Costa 17/03/2005

Sunday, March 06, 2005

A Roda-Gigante

A Roda-Gigante

O mundo é grande
E minhas sensações incertas,
As vezes parece que meus pés estão tão soltos
Em outra parece que nem os sinto.

A vida parece uma escada de tempos,
As vezes me vejo disperso,
Em outra não vejo...
E tudo se parece com um escárnio doce e seco.

O mundo é muito pequeno,
As vezes te vejo calado,
Em outras sorri de mentira
As vezes me encontro acordado.

A vida é um aeroporto quadrado
Que me deito quando estou dormindo,
E desperto quando extasiado
Subindo tranqüilamente, subindo.

O mundo é muito volúvel
Parece crescer sem parar,
Parece pequeno e subo
A rir, a sorrir, a cantar.

Emiriene Costa